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Rio de
Janeiro,
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| Origens > Histórico do nome de família | ||
| Suas origens lingüísticas e históricas | ||
Sob o ponto de vista lingüístico, o nome de família Michelotto se constitui num vocábulo composto por dois elementos distintos: um radical que será amplamente descrito a seguir, mais o sufixo latino -ottus que se fixa no italiano sob a forma -otto. Por ser de mais fácil análise e por determinar o significado final deste sobrenome, descreve-se primeiramente esta desinência tipicamente latina. O sufixo diminutivo -ottus é um indicativo de afeição, carinho, simpatia, benquerença, além de transmitir, como diminutivo especifico, a noção de jovem, menos velho. Aplicado inicialmente somente a animais jovens, transfere-se depois esta acepção às pessoas em que transparece um sentido de redução de idade, usado com um teor de bonomia, jocosidade e simpatia [confira-se, por exemplo, vecchio e vecchiotto: velho, mas nem tanto; giovane e giovanotto: nem jovenzinho, mas tampouco velho; lupo, lupotto: lobo jovem, mas não filhote e tão pouco lobo idoso]. O sufixo expressa também a noção de rusticidade, de homem simples, interiorano, camponês. Vez por outra, indica também habitante de localidade, de região, como em rovigotto [habitante de Rovigo], varesotto [natural de Varese]. O primeiro componente ou radical do sobrenome remonta ao antropônimo ou nome próprio hebraico, conferido originalmente a um anjo, Miguel, que no italiano se fixa sob a forma de Michele. Sendo proveniente deste antropônimo, não resta alternativa, senão explicar este nome para entender a origem e decorrente significado do sobrenome. O nome Michele se origina do hebraico bíblico Mika’el, Miguel. Na verdade, este nome hebraico é um composto por três elementos: mi [quem], ke [como] e El, abreviação de Elohim, que quer dizer Deus, Javé, Senhor. O significado literal resulta em quem como Deus? A maioria dos exegetas hebreus e cristãos interpretam este nome como quem é forte, quem é poderoso, grande como Deus? Na visão bíblica, atestada em diversas passagens, este é o nome do arcanjo Miguel, o príncipe dos anjos, aquele que combate a satanás e a todo o mal. O nome do arcanjo foi adaptado, na tradição cristã, tanto em grego quanto no latim, na forma gráfica Michael. Na realidade, a figura desse arcanjo ou mensageiro surgiu na tradição bíblica tardia, nos últimos séculos antes de Cristo e somente no livro do profeta Daniel. Este, numa visão apocalíptica vê o príncipe dos anjos vindo em socorro do povo de Israel. Eis algumas passagens do texto bíblico do Antigo Testamento em que aparece o nome deste arcanjo, na versão latina da Bíblia: “Et ego veni propter sermones tuos. Princeps autem regni Persarum restituit mihi viginti et uno diebus; et ecce Michael, unus de principibus primis, venit in adjutorium meum” [Daniel, 10,13]. E continua mais adiante: “Verumtamen annuntiabo tibi quod expressum est in scriptura veritatis; et nemo est adjutor meus in omnibus his, nisi Michael, princeps veste?" [Daniel, 10,21]. E termina: “In tempore autem ilIo consurget Michael, princeps magnus, qui stat pro flíjis populi tui; et veniet tempus quale non fuit ab eo ex quo gentes esse coeperunt usque ad tempus illud. Et in tempore jílo salvabitur populus tuus omnis qui inventus fuerit scriptus in libro” [Livro de Daniel 12,1]. A figura e o nome desse poderoso arcanjo só reaparecem nos textos bíblicos bem mais tarde, ou seja, na Epístola do Apóstolo São Judas Tadeu, com esta única frase: “Cum Michael Archangelus cum diabolo disputans altercaretur de Moysi corpore, non est ausu judicium inferre blasphemiae: sed dicit: Imperet tibi Dominus” [Epístola de Judas, 9]. A projeção máxima da figura desse arcanjo ocorre, no entanto, no último livro da Bíblia, o Apocalipse do Apóstolo São João. Miguel é descrito em sua figura de príncipe dos anjos que luta contra o dragão ou satanás e seus seguidores, os anjos rebeldes. O texto fala por si: “Et factum est praelium magnum in caelo: Michael et angeli ejus praeliabantur cum dracone, et draco pugnabat, et angeli ejus: et non valuerunt neque locus inventus est eorum amplius in caelo. Et projectus est draco ilIe magnus, serpens antiquus, qui vocatur diabolus, et Satanas, qui seducit universum orbem: et projectus est in terram, et angeli ejus cum jílo missi sunt” [Apocalipse 12,7-9]. Estas passagens bíblicas foram fundamentais para a grande divulgação, desde os primórdios do cristianismo, do culto e temor por este Arcanjo. O culto se difunde primeiramente no Oriente, nas Igrejas grega, siríaca, armena e copta. No Ocidente, o culto se espalha rapidamente após as aparições desse Arcanjo no Monte Gargano, na Província de Foggia [08 de maio de 493], e no Mausoléu do Imperador Adriano em Roma [no ano 590]; este se torna conhecido, desde então, como Castel Sant’Angelo. Relata-se também outra aparição na Normandia sobre um monte, chamado por esta razão de Mont-Saint-Michel. Os textos bíblicos foram transcritos em latim, porquanto esta língua é a base do idioma italiano e se reflete também nos sobrenomes. Como decorrência do grande prestígio e culto de São Miguel Arcanjo em toda a cristandade, muitos templos lhe foram dedicados, vilas e cidades surgiram recordando-lhe o nome. Este hagiônimo [nome santo, sagrado] foi imposto na pia batismal por inúmeros pais a seus filhos recém-nascidos, tornando-se, também por isto, um dos nomes mais difundidos em todo o mundo cristão. Muitas personalidades da história medieval foram portadoras deste nome, propiciando sempre maior difusão do mesmo. Basta recordar Sanctus Michael Synkellus (761-846) que distribuiu todos os seus bens aos pobres, fez-se monge e ganhou fama em sua luta contra as heresias cristãs no Oriente; Michael Bachernita, renomado pintor bizantino do século X; Michael Micros, outro pintor bizantino contemporâneo do anterior. Convém relembrar também os nove Imperadores do Oriente assim chamados: Michael I [811-813]; Michael II [920-829]; Michael III [842-867]; Michael IV [1034-41]; Michael V [1041-42]; Michael VI [1056-57]; Michael VII [1071-78]; Michael VIII [1258-72]; Michael IX [1277-1320]. Recordam-se ainda Michael Cerularius, Patriarca de Constantinopla [1043-1058], responsável pelo cisma entre a Igreja oriental Ortodoxa e a Católica Romana, em 1054, cisão que perdura até hoje; Michael Italicus [séc. XII], homem de renome no Oriente, professor de filosofia e medicina; Michael Siriacus, Patriarca da Armênia, falecido em 1199, deixou vasta obra composta de tratados de teologia, poesias, biografias e uma história universal que se encerra em 1195. Podem ser mencionados ainda outros, como Michael Scotus, cientista falecido em 1236, viveu na Espanha e na Itália, traduzindo obras científicas árabes, passando depois para a Alemanha a serviço da Corte como astrônomo e matemático [Dante Alighieri, na sua Divina Commedia XX, 116, reservou-lhe um lugar no inferno]; finalmente, recorde-se Michele di Lando (1343-1401), que se tornou sobremodo famoso por ter sido o primeiro grande revolucionário de estilo moderno que agia em favor dos pobres da Idade Média, conseguindo através de paralisações do trabalho e pela luta armada, todos os direitos para as classes subalternas na República de Florença. A relação de personalidades medievais, portadoras deste nome na época do surgimento dos sobrenomes italianos [entre os séculos VIII e XIV], seria interminável, se quisesse esgotar os arquivos históricos. Uma breve incursão na topomástica italiana mostra um dado relevante. Existem 62 localidades principais, cuja denominação é San Michele. Destas, seis são municípios e cidades e as demais se constituem em distritos, vilas e povoações que, em seu nome, recordam o Arcanjo Michael, Michele. Este fato comprova a grande difusão do culto ao arcanjo San Michele, nos ambientes cristãos. A difusão do culto deste arcanjo nos meios cristãos levou os pais a atribuir seu nome a seus filhos como preito de devoção e como manifesta invocação. Os textos medievais que mencionam cidadãos de todas as classes trazem continuamente este nome. Sua forma latina Michael é conservada una até passar para a italiana Michele. O nome diminutivo, acrescido do sufixo descrito acima, comparece sob as formas Michaelottus e Michelottus; esta última se fixa mormente após os séculos X e XI, época em que o italiano arcaico se difunde, mas ainda é utilizado com alternativa ao latim que predomina nas classes mais cultas e nos textos lavrados por escrivãos. O nome de família Michelotto tem uma história simples e
que busca sua fundamentação nos ambientes cristãos
medievais. O sobrenome se constitui, portanto, num evidente antroponímico
[derivado de nome próprio] e, em decorrência, é também
um patronímico, porquanto recorda e repete, na função
de sobrenome, o nome próprio do ancestral fundador deste tronco
familiar. Todo patronímico transmite as noções de
paternidade e de filiação. Michelotto, enquanto sobrenome,
significa, pois, filho do patriarca medieval, chamado Michael dictus Michaelottus,
Michele dito Michelotto. O nome foi transmitido aos filhos, fixando-se
como sobrenome de toda a posteridade deste patriarca medieval, iniciador
do núcleo familiar designado e conhecido como Michelotto.
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